Dor na mandíbula e dor de cabeça: existe relação?
Você acorda com a mandíbula cansada, passa o dia percebendo que está apertando os dentes e, no fim da tarde, começa aquela dor na têmpora.
Ou talvez seja o contrário: a cabeça começa a doer e, junto, você percebe que a mandíbula está dolorida.
Será que uma coisa tem a ver com a outra?
Pode ter.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que mandíbula e dor de cabeça podem estar relacionadas e afirmar que “a mandíbula é a causa da sua dor de cabeça”.
A ciência não permite essa conclusão em todos os casos.
A relação depende do tipo de dor, das estruturas envolvidas e de como os sintomas se comportam.
O que a mandíbula tem a ver com a cabeça?
A mandíbula não funciona isoladamente.
Ela se movimenta por meio da articulação temporomandibular (ATM) e de um conjunto de músculos responsáveis pela mastigação, como o masseter, o temporal e os músculos pterigoideos.
Essas estruturas têm relação com o nervo trigêmeo, um dos principais responsáveis pela sensibilidade da face e que também participa do processamento da dor na região da cabeça.
É aqui que a história começa a ficar interessante.
Quando uma estrutura da região da mandíbula apresenta dor, as informações relacionadas a esse estímulo são processadas pelo sistema nervoso. Como diferentes regiões da face e da cabeça compartilham vias de processamento, a dor pode ser percebida em áreas próximas ou relacionadas.
É um dos mecanismos que ajudam a explicar por que uma pessoa pode ter dor na região da mandíbula e também sentir dor na têmpora.
Mas atenção: isso não significa que toda dor de cabeça tenha origem na mandíbula.
DTM pode estar relacionada à dor de cabeça?
Sim.
Os transtornos temporomandibulares (DTM) são um conjunto de condições que podem envolver a ATM, os músculos da mastigação e estruturas associadas.
Estudos mostram uma associação entre DTM dolorosa e cefaleias.
Além disso, a Classificação Internacional das Cefaleias reconhece a possibilidade de uma cefaleia atribuída a um transtorno temporomandibular.
Mas existe um detalhe que faz toda a diferença:
ter DTM e ter dor de cabeça não significa automaticamente que a DTM esteja causando a dor de cabeça.
Para considerar que existe uma relação entre os sintomas, é preciso observar o comportamento da dor.
Por exemplo, a relação fica mais plausível quando a dor de cabeça:
- aparece ou piora durante a mastigação;
- é agravada pelos movimentos da mandíbula;
- acontece junto com a dor mandibular;
- pode ser reproduzida durante a avaliação dos músculos da mastigação ou de movimentos mandibulares.
Também precisamos perguntar:
“O que faz essa dor piorar ou melhorar?”
E aquela dor na têmpora?
Essa é uma região que merece atenção.
O músculo temporal é um dos principais músculos da mastigação e está localizado na região lateral do crânio.
Quando há dor relacionada à musculatura mastigatória, a região temporal pode participar do quadro doloroso.
Por isso, algumas pessoas relatam que a dor parece “subir” da mandíbula para a têmpora.
Isso é possível e possui explicação anatômica e neurofisiológica.
Só que a têmpora também pode doer por diversos outros motivos.
Portanto, sentir dor na têmpora não é suficiente para diagnosticar um problema na ATM ou nos músculos da mastigação.
E se eu tiver bruxismo?
Aqui também existe muita confusão.
Bruxismo não é sinônimo de DTM.
Atualmente, o bruxismo é entendido como uma atividade dos músculos da mastigação caracterizada por apertar ou ranger os dentes e/ou tensionar a mandíbula. Ele pode acontecer durante o sono ou enquanto estamos acordados.
E ter bruxismo não significa necessariamente ter dor.
Da mesma forma, não é correto afirmar que:
“Você tem dor de cabeça porque range os dentes.”
A atividade dos músculos da mastigação pode fazer parte do quadro de algumas pessoas, mas é necessário avaliar se existe uma relação entre essa atividade e os sintomas apresentados.
É justamente aí que uma avaliação individualizada faz diferença.
E se for enxaqueca?
Esse é outro ponto importante.
Nem toda dor de cabeça em uma pessoa com DTM é causada pela mandíbula.
A enxaqueca é uma condição neurológica com características próprias. Ela pode envolver dor geralmente unilateral, pulsátil, de intensidade moderada ou forte, piora com atividade física e sintomas como náusea, fotofobia e fonofobia.
Já a cefaleia do tipo tensional costuma apresentar dor bilateral, com sensação de pressão ou aperto e intensidade leve a moderada.
São condições diferentes e precisam ser diferenciadas de uma cefaleia que realmente esteja relacionada à DTM.
Por isso, não é uma boa ideia olhar para qualquer dor na cabeça e concluir:
“É tensão na mandíbula.”
Pode ser.
Mas também pode não ser.
E o pescoço entra nessa história?
Pode entrar.
O sistema nervoso possui conexões importantes entre as informações provenientes da região da cabeça, face e região cervical superior.
Essa integração é conhecida, de forma simplificada, como convergência trigeminocervical.
Ela ajuda a explicar por que determinadas dores cervicais podem ser percebidas na cabeça e por que, em alguns pacientes com dor craniofacial, também faz sentido avaliar a região cervical.
Isso não quer dizer que exista uma regra do tipo:
“mandíbula desalinhada causa problema no pescoço.”
Essa afirmação é muito mais forte do que as evidências permitem.
O que sabemos é que existe uma integração entre essas regiões no processamento da dor.
Como saber se a sua mandíbula pode estar participando da dor?
Alguns sinais merecem atenção:
- dor na mandíbula associada à dor de cabeça;
- dor na têmpora que piora ao mastigar;
- desconforto ao abrir ou fechar a boca;
- sensibilidade nos músculos da mastigação;
- dor na região da ATM;
- dificuldade para abrir a boca;
- episódios de travamento da mandíbula;
- percepção frequente de apertamento dos dentes;
- dor que começou ou piorou junto com os sintomas mandibulares.
Eles apenas ajudam a direcionar a investigação.
Por isso, se você sente dor na mandíbula e dor de cabeça com frequência, o mais importante não é tentar descobrir a causa apenas pelo local onde dói.
É entender como essa dor se comporta, quais estruturas estão envolvidas e se existe realmente uma relação entre os sintomas.
É aí que uma avaliação adequada deixa de ser apenas sobre “onde dói” e passa a investigar por que dói.
Referências científicas
Schiffman E, Ohrbach R, Truelove E, et al. Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD) for Clinical and Research Applications. Journal of Oral & Facial Pain and Headache. 2014;28(1):6–27. doi:10.11607/jop.1151.
Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1–211. doi:10.1177/0333102417738202.
Sessle BJ. The neural basis of temporomandibular joint and masticatory muscle pain. Journal of Orofacial Pain. 1999;13(4):238–245.
Svensson P, Graven-Nielsen T. Craniofacial muscle pain: review of mechanisms and clinical manifestations. Journal of Orofacial Pain. 2001;15(2):117–145.
de Leeuw R, Klasser GD, eds. Orofacial Pain: Guidelines for Assessment, Diagnosis, and Management. 6th ed. Quintessence Publishing; 2018.